Revista Virtual de Artes, com ênfase na pintura

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O sono das águas…

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O SONO DAS ÁGUAS

Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d¿água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…

(Guimarães Rosa)

Um autor, duas obras: Gustave Léonhard de Jonghe

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GUSTAVE LÉONHARD DE JONGHE
(Bélgica, 1829-1893)

Viver não doi…

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VIVER NÃO DOI

Definitivo, como tudo que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
Mas das coisas que foram sonhadas
E não se cumpriram.
 
Por que sofremos tanto por amor ?
O certo seria a gente não sofrer,
Apenas agradecer por termos conhecido
Uma pessoa tão bacana,
Que gerou em nós um sentimento intenso
E que nos fez companhia por um tempo razoável,
Um tempo feliz.
 
Sofremos por quê?
Porque automáticamente esquecemos
O que foi desfrutado e passamos a sofrer
Pelas nossas projeções irrealizadas,
Por todas as cidades que gostaríamos
De ter conhecido ao lado de nosso amor
E não conhecemos,
Por todos os filhos que
Gostaríamos de ter tido juntos e não tivemos,
Por todos os shows e livros e silêncios
Que gostaríamos de ter compartilhado,
E não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados
Pela eternidade.
 
Sofremos não porque
Nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
Mas por todas as horas livres
Que deixamos de ter para ir ao cinema
Para conversar com um amigo,
Para nada, para namorar.
 
Sofremos não porque nossa mãe
É impaciente conosco,
Mas por todos os momentos em que
Poderíamos estar confidenciando a ela
Nossas mais profundas angústias
Se ela estivesse interessada
Em nos compreender.
 
Sofremos não porque nosso time perdeu,
Mas pela euforia sufocada.
 
Sofremos não porque envelhecemos,
Mas porque o futuro está sendo
Confiscado de nós,
Impedindo assim que mil aventuras
Nos aconteçam,
Todas aquelas com as quais sonhamos e
Nunca chegamos a experimentar.
 
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
 
A cada dia que vivo,
Mais me convenço de que o
Desperdício da vida
Está no amor que não damos,
Nas forças que não usamos,
Na prudência egoística que nada arrisca,
E que, esquivando-se do sofrimento,
Perdemos também a felicidade.
 
A dor é inevitável.
O sofrimento e opcional.
Fé é colocar seu sonho à prova!
 
Carlos Drummond de Andrade

Pintura: Franz Dvorak (Pintor austríaco, 1862-1927)


Temas da Pintura: Os pássaros–Galeria 20

AS POMBAS

Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada…
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada…
Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais…

Raimundo Correia (1859-1911)

Marie Oesterley (1842 - 1916) - Study of doves and roses, with a view of a house in the background

MARIE OESTERLEY


The love note - Emile Eisman SemenowskyJoseph Caraud (1821-1905) - The Love Birds

EMILE EISMAN SEMENOWSKY                                                                                   JOSEPH CARAUD


Feeding the doves, Edward Killingworth Johnson

EDWARD KILLINGWORTH JOHNSON


7stepan-bakalowiczAlfred Seifert (1850-1901)

STEPAN BAKALOWICZ                                                                           ALFRED SEIFERT


MarieSpartalliStillman_loves_messenger(1885)Charles Spencelayh (1865-1958) - My Pet

MARIE SPARTALLI STILLMAN                                                                  CHARLES SPENCELAYH


unknown artist (19th Century) - A pretty girl feeding birdsunknown artist (19th Century) - A lady on a terrace feeding doves

ARTISTAS DESCONHECIDOS – SÉCULO 19


Charles Joshua Chaplin (1825-1891) - Feeding Doves

CHARLES JOSHUA CHAPLIN


Espelho, espelho meu ! … Galeria 18

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MIRAGEM

Eu no espelho: atentas, nós duas
nos observamos para além da imagem.
Estendemos a mão, tocamos esse pó de gelo,
sabendo:
se eu mergulhar daqui, e do seu lado, ela,
vão se fundir num sopro nossos rostos,
todos os meus sonhos e os anseios dela.

Mas nenhuma se atreve. Continuamos
sozinhas nesse mundo de reflexos,
eu e ela incompletas, nuas
e sós.
(Lia Luft)

Ilustração: Arno von Riesen

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ALFRED JOSEPH WOOLMER                                                            PIERRE PAUL PRUD´HON


Maria Wilhelmina Wandscheer(dutch-1856-1936)-before-the-ball_478x800Interior with a woman-Carl Vilhelm Holsoe

MARIA WILHELMINA WANDSCHEER                                                                                        CARL VILHELM HOLSOE


Ulisse Caputo (1872-1948) - Through the looking glassTwenty-Six of June, Old Lyme - Childe Hassam_1912

ULISSE CAPUTO                                                                               CHILDE HASSAM


JosephCaraud -1821-1905Hans Hamza - Young Girl in Front of the Mirror

JOSEPH CARAUD                                                                             HANS HAMZA


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PETRUS VAN SCHENDEL


Alfred Tennyson, The Day Dream (1885) Illustration by H Winthrop Peirce

Ilustração: H. Winthrop Pierce


Um autor, duas obras: Léon-Jean Bazille Perrault

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LÉON- JEAN BAZILLE PERRAULT

(20 de Junho de 1832, Poitiers, França – 1908, Royan, França)


Um autor, duas obras: Hugues Merle

hugues-merle-0021Merle_Hughes_Maternal_Affection

HUGUES MERLE

(Saint Martin, França, 1823 – Paris, França, 1881)

Um pouco de poesia…

Puvis-de-Chavannes-Pierre-Meditation

Poema
É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.

Carlos Drummond de Andrade

Pintura: Puvis de Chavannes


Moonlight Night -1880- Ivan Kramskoy (russian painter)

Canção do Sonho Acabado

Já tive a rosa do amor
- rubra rosa, sem pudor.
Cobicei, cheirei, colhi.
Mas ela despetalou
E outra igual, nunca mais vi.
Já vivi mil aventuras,
Me embriaguei de alegria!
Mas os risos da ventura,
No limiar da loucura,
Se tornaram fantasia…
Já almejei felicidade,
Mãos dadas, fraternidade,
Um ideal sem fronteiras
- utopia! Voou ligeira,
Nas asas da liberdade.
Desejei viver. Demais!
Segurar a juventude,
Prender o tempo na mão,
Plantar o lírio da paz!
Mas nem mesmo isto eu pude:
Tentei, porém nada fiz…
Muito, da vida, eu já quis.
Já quis… mas não quero mais…

Cecília Meireles

Pintura: Ivan Kramskoi


AlfonsoSimonetti_ancor_non_torna

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade

Pintura: Alfonso Simonetti


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