Revista Virtual de Artes, com ênfase na pintura do século XIX

Cecília Meireles

 
                      Motivo
Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste: sou poeta.
Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias no vento.
Se desmorono ou se edifico,se permaneço ou me desfaço,- não sei, não sei.
Não sei se fico ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:- mais nada.
                     Canção
Não te fies do tempo nem da eternidade
Que as nuvens me puxam pelos vestidos,
Que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
Que amanhã morro e não te vejo!
Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
Nácar de silêncio que o mar comprime,
Ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
Que amanhã eu morro e não te escuto!
Aparece-me agora, que ainda reconheço
A anêmona aberta na tua face
E em redor dos muros o vento inimigo…
Apressa-te, amor, que amanha eu morro,
Que amanha morro e não te digo…
         Canção(2)
Não sou a das águas vista
nem a dos homens amada;
nem a que sonhava o artista
em cujas mãos fui formada.
Talvez em pensar que existia
vá sendo eu mesmo enganada
Quando o tempo em seu abraço
quebra meu corpo, e tem pena,
quanto mais me despedaço
mais fico inteira e serena.
Por meu dom divino faço
tudo a que Deus me condena.
Da virtude de estar quieta
componho meu movimento.
Por indireta e direta,
perturbo estrelas e vento.
Sou a passagem da seta
e a seta, – em cada momento.
Não digas aos que encontrares
que fui conhecida tua.
Quando houve nos largos mares
desenho certo de rua?
E de teres visto luares,
que ousarás contar da lua?
         Canção(3)
Nuca eu tivera querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.
Levou somente a palavra,
deixou ficar o sentido.
O sentido está guardado,
no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.
Nunca ninguém viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem…
Só se aquele mesmo vento
fechou teus olhos também…
            Entusiasmo
Por uns caminhos extravagantes,
irei ao encontro desses amores
- por que suspiro – distantes.
Rejeito os vossos, que são de flores.
Eu quero as vagas, quero os espinhos
e as tempestades, senhores.
Sou de ciganos e de adivinhos…
Não me conformo com os circunstantes
e a cor dos vossos caminhos.
Ide com os zoilos e os sicofantas.
Mas respeitai vossos adversários
que nem querem ser triunfantes.
Vou com sonâmbulos e corsários,
poetas, astrólogos e a torrente
dos mendigos perdulários.
E cantamos fantasticamente,
pelos caminhos extravagantes,
para Deus, nosso parente.
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