O poeta…
Um livro de poemas
é o outono morto:
os versos são as folhas
negras em terras brancas,
e a voz que os lê
é o sopro do vento
que lhes mete nos peitos
— entranháveis distâncias. —
O poeta é uma árvore
com frutos de tristeza
e com folhas murchadas
de chorar o que ama.
O poeta é o médium
da Natureza-mãe
que explica sua grandeza
por meio das palavras.
O poeta compreende
todo o incompreensível,
e as coisas que se odeiam,
ele, amigas as chama.
Sabe ele que as veredas
são todas impossíveis
e por isso de noite
vai por elas com calma.
Federico Garcia Lorca
A balada da água do mar…
O mar
sorri ao longe.
Dentes de espuma,
lábios de céu.
- Que vendes, ó jovem turva,
com os seios ao ar?
- Vendo, senhor, a água
dos mares.
- Que levas, ó negro jovem,
mesclado com teu sangue?
- Levo, senhor, a água
dos mares.
- Essas lágrimas salobres
de onde vêm, mãe?
- Choro, senhor, a água
dos mares.
- Coração, e esta amargura
séria, onde nasce?
- Amarga muito a água
dos mares!
O mar
sorri ao longe.
Dentes de espuma,
lábios de céu.
Federico García Lorca
Canção Outonal
Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas,
mas minha senda se perde
na alma de névoa.
A luz me quebra as asas
e a dor de minha tristeza
vai molhando as recordações
na fonte da ideia.
Todas as rosas são brancas,
tão brancas como minha pena,
e não são as rosas brancas
porque nevou sobre elas.
Antes tiveram o íris.
Também sobre a alma neva.
A neve da alma tem
copos de beijos e cenas
que se fundiram na sombra
ou na luz de quem as pensa.
A neve cai das rosas,
mas a da alma fica,
e a garra dos anos
faz um sudário com elas.
Desfazer-se-á a neve
quando a morte nos levar ?
Ou depois haverá outra neve
e outras rosas mais perfeitas ?
Haverá paz entre nós
como Cristo nos ensina ?
Ou nunca será possível
a solução do problema ?
E se o amor nos engana ?
Quem a vida nos alenta
se o crepúsculo nos funde
na verdadeira ciência
do Bem que quiçá não exista,
e do mal que palpita perto ?
Se a esperança se apaga
e a Babel começa,
que tocha iluminará
os caminhos da Terra ?
Se o azul é um sonho,
que será da inocência ?
Que será do coração
se o Amor não tem flechas ?
Se a morte é a morte,
que será dos poetas
e das coisas adormecidas
que já ninguém delas se recorda ?
Oh! sol das esperanças!
Água clara! Lua nova!
Coração dos meninos!
Almas rudes das pedras!
Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas
e todas as coisas são
tão brancas como minha pena.
Federico García Lorca
- retirado do blog: UMBIGODE